Pois bem. Vamos a um pequeno roteiro para se entender a novela. Deixo aos leitores a conclusão desse enredo.
Tema: Banalização do planejamento.
Frase de efeito: como fazer coisas idiotas da maneira mais "firme" possível.
Vamos agora à uma informação importante, que serve como parâmetro do que estamos tratando. Quem escreve é Horácio Augusto Figueira, mestre em Engenharia de Transportes pela USP:
Para transportar 35 pessoas viajando sentadas numa faixa de tráfego, um ônibus convencional ocupa 15 metros. Por sua vez, para transportar as mesmas pessoas em carros, são necessários 25 automóveis (ocupação média de 1,4 pessoa/automóvel e 6 metros/automóvel) e cerca de 150 metros -ou seja, forma-se uma fila de uma quadra e meia. Os usuários do transporte individual impõem à sociedade os maiores dispêndios em energia, investimentos para obras de sistemas viários com eficiência duvidosa, custos dos congestionamentos, poluição do meio ambiente, acidentes de trânsito, doenças respiratórias etc.
Ignorando qualquer planejamento -- ou mesmo o bom senso --, o prefeito de São Paulo proibiu, sem dar qualquer aviso, a circulação de ônibus fretados no centro expandido da cidade.
Vejamos agora o que diz o jornalista Alencar Izidoro sobre a medida:
A restrição aos ônibus fretados vai na contramão do que prega a maioria dos especialistas -- por desestimular uma forma de transporte coletivo e, na prática, criar incentivos ao transporte individual, mais prejudicial à sociedade. Em qualquer lugar do mundo, a dificuldade é convencer as pessoas a deixar seus carros na garagem para usar ônibus, trens e até metrô. Aqui, ao restringir de forma severa os fretados, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) passa mensagem inversa, principalmente quando usa como justificativa a melhoria da fluidez do trânsito.
Resta, agora, uma dúvida: quem saiu beneficiado disso?
"Do jeito que está, quem está comemorando são algumas empresas de ônibus urbanos, tradicionais aliadas do prefeito", diz Alencar. Como se sabe, um dos maiores gastos da Prefeitura de SP são com as duas concessionárias de transportes urbanos coletivos, que oferecem os serviços de ônibus para o município. Até o ano passado, eram R$ 40 milhões por ano que saiam do cofre da Prefeitura para as concessionárias. Hoje, já bate na casa dos R$ 80 milhões.
Mas não só estes. A coluna de Mônica Bergamo publicada na Folha de S.Paulo de sexta-feira (31 de julho) dá outra boa dica:
FORA FRETADOS
A restrição aos ônibus fretados implantada em São Paulo foi comemorada ao menos por um grupo, o de moradores dos Jardins. O fluxo dos fretados era uma das principais reclamações na região, diz o diretor da Ame Jardins, João Maradei Jr., onde circulavam em alta velocidade, para fugir do trânsito das avenidas, atrapalhando o trânsito, derrubando galhos de árvores e fios da rede elétrica. "Agora, o trânsito já começou a melhorar", diz Maradei.
Mas não é só isso. Logo abaixo, na mesma coluna, tem mais uma nota. Vejamos:
ALÔ, PREFEITO
E os moradores dos Jardins terão uma reunião com o prefeito Gilberto Kassab no dia 19, no MuBE, para tratar das reivindicações da região. Entre as principais, rondas mais ostensivas no bairro, maior controle do trânsito e podas de árvores.
Não é qualquer grupo de moradores que consegue agendar uma "reunião com o prefeito" no MuBE para tratar das "reivindicações da região". Veja você, morador da Vila Maria, Santo Amaro, Jardim São Paulo, se consegue, por meio de sua associação de moradores, agendar uma "reunião com o prefeito". Se conseguir, tente o MuBe. E veja bem: trate apenas de conversar com o prefeito sobre as "reivindicações da sua região". Não vá tratar ou se preocupar das outras não, ouviu?
Pronto, o enredo está formado. Resta um final, uma conclusão para isso tudo. O que você sugere?
Vejamos o que os leitores disseram até agora:
Hugo Albuquerque disse:
Quando pegamos essa medida dele [do Kassab], encontramos o seu lado malufista em ação: Ele parte da premissa de que o planejamento de uma cidade deve ser baseada no interesse privado em detrimento do coletivo, pesando ainda quanto vale cada "interesse privado". Dessa forma, uma reivindicação de alguns moradores dos Jardins só encontraria par na zona leste caso dois ou três bairros de lá pegassem fogo.
cappacete disse:
Nas manifestações contra a proibição dos fretados estavam presentes cidadãos de classe média, que não foram poupados pela polícia. Kassab leva em conta que essas pessoas não era moradoras da cidade, a maioria era do ABC, mas o caos foi sentido também pelos paulistanos. (...) o Kassab não liga para a classe média, muito menos para as baixas, seu governo é voltado para o seu grupo social, os moradores dos jardins.
O que mais temos sobre o prefeito de São Paulo?

6 comentários:
João,
Kassab, como insisto em lembrar, é um monstrinho que mistura o Malufismo da sua juventude, o Tucanismo da sua maturidade e o Quercismo que as exigências lhe impõem.
Quando pegamos essa medida dele, encontramos o seu lado malufista em ação: Ele parte da premissa de que o planejamento de uma cidade deve ser baseada no interesse privado em detrimento do coletivo, pesando ainda quanto vale cada "interesse privado".
Dessa forma, uma reivindicação de alguns moradores dos Jardins só encontraria par na zona leste caso dois ou três bairros de lá pegassem fogo.
Essa comparação final foi ótima, Hugo.
De fato, uma conjunção de todos os estigmas da cidade: malufismo e quercismo.
O incrível é que ele não pode nem ser caracterizado como "pragmático" -- qualidade que damos àquele político que não cabe em mais nenhuma ideologia explicável e coerente.
As medidas de Kassab não chegam a ser políticas, partidárias ou pragmáticas.
O que são elas?
É incrível...
João,
Uma das causas para a Ditadura ter retirado o ensino do Latim da grade curricular foi, justamente, criar uma alienação das pessoas em relação ao significado das palavras - para o que nem mesmo o ensino do Latim basta, afinal ele depende do ensino da língua Helênica. A falta de cultura clássica somada ao cientificismo reinante gera uma barbaridade pseudo-letrada.
Por que eu estou dizendo isso? É que frequentemente as pessoas usam o termo "pragmático" como oposição a ideológico - e não raro usam o termo "ideológico" como sinônimo de esquerdista e de idealista. Isso se deve a deficiência educacional mesmo de nossas elites. Vejamos, a Pragmática nada mais é do que a técnica da ação - vem de práxis, "ação" na língua grega -, haja vista que uma ação racional sempre é direcionada por uma determinada concepção de mundo - a Ideologia -. logo, uma coisa não exclui a outra.
A verdade por detrás dessa falácia, é que aqueles que se referem à Pragmática nesse sentido equivocado - refiro-me aos que sabem do significado dela, não aos idiotas úteis - buscam dar uma conotação de pureza e neutralidade à ideologia que norteia a ação que exercida por determinado ator político; de repente é como se a Política se limitasse a uma série de escolhas exatas que pudesse ser matematificada e executada por um entendido a despeito do debate público.
Nessa concepção, o “ideológico” seria o idealista, o ator político que se move contra a “realidade” - e a realidade aqui, e como
já debati n’O Descurvo, no sentido de elemento normatizador e limitador da ação política. Trata-se de uma negação da subjetividade, onde o defensor dessa argumentação se coloca como conhecedor pleno da realidade objetiva, colocando sua visão como a única possível e usando a falácia realista como meio de, reitero, orientar a ação de outrem dizendo o que é possível ou não.
Lembro-me de um debate que tive com uma jovem e bela nissei pouco antes das eleições de 2008, perguntei a jovem por que ela não votava na Marta, e ela me disse que a Marta não ligava para a classe média. Nas manifestações contra a proibição dos fretados estavam presentes cidadãos de classe média, que não foram poupados pela polícia. Kassab leva em conta que essas pessoas não era moradoras da cidade, a maioria era do ABC, mas o caos foi sentido também pelos paulistanos. Acho que minha amiga se equivocou, o Kassab não liga para a classe média, muito menos para as baixas, seu governo é voltado para o seu grupo social, os moradores dos jardins. Sobre a questão do latim, ótima sacada, é isso mesmo, fui educado pela educação pública do Quércia, Fleury e Covas, e até hoje corro atrás de manuais de gramática e ando com dicionário a tira colo, esses miseráveis estão condenando toda uma geração a ignorância.
Grande Hugo,
Ótima análise -- aliás, ponto muito bem lembrado essa do latim como constituição de um saber menos esquemático da realidade e dos processos históricos.
Salve cappacete,
Pois é meu caro, tenho tido a mesma impressão sobre os grupos de interesses e os verdadeiros representados por essa (falta de) gestão do prefeito de São Paulo, algo que venho denominando de "gestão" Kassab.
Nem mesmo setores da classe média, eleitores históricos de projetos semelhantes -- como os da base formadora de Kassab, conforme lembrado pelo Hugo -- estão satisfeitos ou ao menos compreendendo essa "gestão".
Continuo achando impressionante como esse rapaz conseguiu ser eleito no ano passado e, mais que isso, ser, hoje, lembrado como um nome forte do DEM-PSDB para a disputa pelo governo do Estado nas eleições do ano que vem.
Abraços
João,
Divagações de lado - eu e as minhas eternas divagações -, vejo Kassab como herdeiro, em grande parte do direitismo de São Paulo, apenas com um pequeno diferencial. Nós temos essa elite que nós bem conhecemos e parte da classe média que se espelha nela, o que resta é um projeto privatista, autoritário e...personalista. Isso está na moderna São Paulo - anos 30 pra cá - seja num Adhemar de Barros ou num Paulo Maluf. O que difere o Adhemarismo do Malufismo? Apenas a personalidade deles, o toque pessoal na gestão, mas na prática ambos sintetizavam os mesmo anseios e interesses em suas respectivas épocas. Kassab é fruto dessa tradição, mas soma isso ao Tucanismo, essa corrente moderada que se pôs como a nossa Terceira Via no pós-ditadura se assentando na alegoria de sua suposta excelência administrativa - e o Tucanismo, por mais que seja questionável, ao menos é impessoal e traz alguns avanços em vista da demagogia direitista clássica de Paulista, muito em decorrência do influxo reformista dos fins dos anos 80, quando ele nasceu.
Sobre a eleição de Kassab, eu já penso que era mais previsível do que se imaginava. Já em Janeiro do ano passado, eu cantei a bola de que se ele soubesse jogar com o desgaste pessoal de Marta e Geraldo, ele fatalmente ganharia; veja bem, não resta dúvida que Marta protagonizou certos avanços, mas ao mesmo tempo seu Governo foi marcado por certos momentos de paralisia ao mesmo tempo em que ela se meteu em polêmicas desnecessárias ao longo do seu período como Prefeita ou depois, no Ministério do Turismo. Geraldo, escolhido por um Covas para ser seu vice por sua fidelidade canina e inaptidão em estado puro, foi manobrado após a morte de seu protetor - tanto pelos caciques do seu partido quanto por parte de suas bases no interior - para ir para a direita, foi o idiota útil no momento certo, mas depois se tornou um problema dentro do próprio partido e para os interesses eleitoreiros da elite. Kassab jogou pelo meio nisso e ganhou - o problema, no fim das contas, é que as brigas internas do PT geram uma fragmentação que impedem o partido muitas vezes de se reordenar e agir conforme a conjuntura corretamente.
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