A edição de ontem do Financial Times trouxe um artigo interessante, assinado por John Redwood, faz parte do grupo de competitividade econômica do Partido Conservador, em Londres. Redwood escreve sobre a reunião do Banco Central inglês, que decidirá sobre as taxas de juros no país.
Lá como cá, grupos organizados patronais voltam com os mesmos pedidos de cortes nas taxas básicas de juros para ajudar a baratear o crédito, que está parado desde que explodiu a crise. E na Inglaterra a crise imobiliária atacou quase tão firme quanto nos Estados Unidos.
Sobre essas demandas patronais, Redwood escreve que esses grupos devem perguntar a si mesmos: "é a taxa básica que ainda causa a eles angústia, ou a escassez de crédito ou ainda o erro dos bancos em cobrar de seus clientes uma taxa semelhante à taxa básica?"
É a mesma coisa no Brasil, há tempos. É claro que as taxas básicas de juros influem nas taxas de juros cobradas no país. E os juros básicos também condicionam parte da oferta de crédito. Mas o tamanho da Selic - nossos juros básicos - não influe em praticamente nada no nosso mercado bancário.
A Selic vale hoje 13,75%. Para se ter uma ideia, a taxa de juros média cobrada em empréstimos a pessoas físicas no Brasil é de quase 140% ao ano. Para pessoas jurídicas é um pouco abaixo. Nesse sentido, um corte de 0,5%, ou um pouco mais ou um pouco menos na Selic, muda alguma coisa?
A oferta de crédito foi muito expandida durante o período de fanfarra neoliberal mundial, de 2003 a 2007. O tamanho do crédito em relação ao PIB no Brasil cresceu muitos pontos percentuais, alcançando quase 40%. Muito disso se deu graças a queda na Selic, claro. Mas a melhor explicação está nas condições mundiais apresentadas. Os bancos tinham acesso quase irrestrito à crédito externo, sempre muito barato, facilitando o acesso ao dinheiro.
Não foi o aumento da Selic que travou o crédito, embora seja uma das razões. O que travou o crédito no Brasil foi o fechamento dos mercados internacionais.
Cada vez mais, a taxa de juros básica influi quase que integralmente na política de dívida pública soberana. Quer dizer, a Selic alta aumenta os gastos com serviço das dívidas do governo. Uma taxa mais baixa na Inglaterra diminui a remuneração dos títulos da dívida de lá, aumentando o espaço para o endividamento por outras frentes - algo crucial para escapar dessa crise.

2 comentários:
Se eu estiver aprendendo economia como manda o figurino, diria que este último parágrafo segue um raciocínio keynesiano, a que eu convodor.
Muito bom, como sempre.
Se enquadra sim na teoria de Keynes, para quem o investimento em tempos de depressão serve para gerar poupança, e não o contrário, como dita a teoria rival, neoclássica.
Tenho refletido muito sobre esses temas. Pretendo escrever alguma coisa sobre isso nos próximos dias.
Obrigado pelo elogio, companheiro.
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